O Rio Grande do Sul tem um campeão orgulhoso. Um campeão que olha a seu redor de cabeça erguida e peito inflado. Um campeão que desceu a Serra sereno, em silêncio, e pisou no gramado perfeito do Olímpico sabendo exatamente o que fazer. E o Caxias fez tudo com muita parcimônia e consciência, e soube segurar o resultado de 0 a 0, e conseguiu conter o ímpeto de um ótimo Grêmio. na verdade, o melhor Grêmio do campeonato.
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    Pois o grêmio pressionou. Pressionou como tinha de pressionar um time que precisava vencer por três gols de diferença. Como poucas vezes aconteceu no Gauchão, o Grêmio, teve atacantes agudos e perigosos. Faltou-lhes, porém, eficácia. Cláudio e Amato jogaram bem, causaram perigo à sólida defesa do Caxias, mas não marcaram os gols de que a equipe tanto necessitava.
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    Só um detalhe impediu que o primeiro tempo do Grêmio fosse perfeito: a bola não entrou. Porque, no gol, o Caxias teve um gigante imperturbável, Gilmar. Tranqüilo e seguro, do alto de seus 1,92m de altura, Gilmar salvou o Caxias aos 4 e 13 minutos, em chutes de Amato, aos 25, numa cobrança de falta de Ronaldinho, e aos 44, em outra jogada de Amato. Verdade que aos 11 minutos Amato foi derrubado na área e o árbitro Carlos Simon não marcou penâlti. Mas quem garante que Gilmar não defenderia?
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    Finalizado o primeiro tempo em gol, o pior havia passado. No segundo, o Caxias usou de todas as suas prerrogativas. Sua defesa continuou firme, com Paulo Turra e Émerson soberanos, e seu meio-campo habilidoso saia tocando a bola calmamente, como se estivesse jogando um amistoso. Gil Baiano, prendia a bola, girava o corpo, passava com perfeição, tanta perfeição que chegava a irritar o Grêmio.
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    Estava tudo dando certo. O tempo escoava e os bravos Cláudio e Amato não conseguiam mais as vantagens que tinham conseguido durante toda a partida. O Grêmio se perturbava, atacava sem organização. Nas arquibancadas, a torcida do Caxias gritava "campeão, campeão". Aos 45 minutos, o grêmio finalmente teve premiado seu empenho, pênalti. Ronaldinho, o grande Ronaldinho, correu para bater. Mas no gol havia Gilmar. E quem garantiria que Gilmar não ia defender? Defendeu. Caxias Campeão.
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Paulo Turra com a bandeira do Clube na apoteótica chegada em Caxias do Sul

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GRÊMIO 0x0 CAXIAS
Data: 21 de Junho de 2000
Local: Estádio Olímpico, Porto Alegre
Árbitro: Carlos Simon
Auxiliares: José Carlos Oliveira e André Veras
Renda: R$193174,00
Público: 24326 pagantes
Cartões Amarelos: Anderson, Ronaldinho, Alex Xavier, Zinho, Marinho e Roger(G) Paulo Turra, Gilmar, Sandro Neves, Titi, Adão(C)
Grêmio: Sílvio; Anderson, Marinho, Alex Xavier e Rogér; Anderson Polga(Eduardo), Itaqui(Beto), Zinho e Ronaldinho; Cláudio e  Amato. Técnico: Antônio Lopes
Caxias: Gilmar; Jairo Santos, Émerson, Paulo Turra e Sandro Neves; Ivair, Titi(Cláudio), Gil Baiano e Márcio; Jajá(Delmer) e Adão(Luciano Araújo). Técnico: Tite

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Primeiro Ato: Márcio comemora o terceiro e último gol da goleada sobre o Grêmio, um tiro de misericórdia que, na noite de 14 de Junho, encaminhou a conquista do título gaúcho

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GILMAR PEGA PENALTI E TIME COMEÇA A FESTA

    Ronaldinho correu para bater o pênalti no último minuto de jogo. Já não havia mais chance de mudar a vantagem do Caxias, mas algum silêncio se fez no Olímpico. O atacante Jajá secava sussurrando "erra". E Ronaldinho foi para a bola com toda a certeza de quem não erra de jeito nenhum.
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Foi quando o goleiro Gilmar deu o bote e defendeu. A festa do Caxias estourou.
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    O gramado foi invadido por uma onda de camisas grenás e no estádio ecoavam gritos que vinham do local reservado aos barulhentos torcedores caxienses. O técnico Tite, cercado por reservas, dirigentes e comissão técnica, correu para pegar o terço que a mãe Ivone, de 64 anos, jogou das arquibancadas, dentro de uma lata de balas. Depois, todos se abraçaram e rezaram um pai-nosso e uma ave-maria em agradecimento pela conquista.
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    O técnico Tite foi erguido nos braços pelo jogadores que, em sua maioria, vestiam uma camiseta confeccionada pela mulher do treinador com uma frase dita pelo craque argentino Maradona, antes da final da Copa do Mundo de 1986 contra a Alemanha: "Podem até ganhar o título, mas vão ter de arrancá-lo de dentro de nossos corações". Um dos momentos mais emocionantes da comemoração foi quando o zagueiro Régis, que esteve em coma no hospital depois de levar um soco de Darzone, no ano passado, entrou em campo. O meia Titi tirou a camiseta e colocou-a em Régis, " a cara do Caxias", segundo Tite.
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    -Também sou campeão - disse o emocionado zagueiro.
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    O volante Ivair resumiu o sentimento geral dos jogadores, que pegaram um avião rumo à festa em Caxias:
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    -É nosso, vamos comemorar!
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Posteridade: guardem esta imagem. Aí está o último campeão gaúcho do Século XX, fazendo a festa em pleno Estádio Olímpico

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A MURALHA GILMAR
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    O Grêmio bem que tentou. Jogou-se ao ataque, mostrou determinação e criou boas chances para marcar gols. Uma muralha, porém, impediu que o time tricolor construísse o placar necessário para desfazer a vantagem do adversário.
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    Gilmar, o goleiro do Caxias,foi intransponível na noite de ontem no Estádio Olímpico.
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    Nada passou pelo catarinense Gilmar Dal Pozzo, 30 anos. E olha, não foram poucas as tentativas do adversário. Não fosse sua correta e segura atuação, o Caxias por certo teria saído do primeiro tempo com um resultado adverso. Logo aos 13 minutos, mostrou reflexo ao defender chute de Amato dentro da pequena área em oportunidade clara de gol.
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    Esperançosa, a torcida do Grêmio se movimentou nas arquibancadas quando Ronaldinho se preparou para bater falta da intermediária. Certo, era de longe, mas se tratando de Ronaldinho sempre há perigo. E lá foi o craque gremista, chute cheio de efeito, perigoso. O grandalhão Gilmar, 1m92cm, 92 quilos, fez defesa em dois tempos: rebateu e depois mandou para escanteio evitando rebote.
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    Mas foi aos 44 minutos que Gilmar mostrou toda sua qualidade. Depois de uma confusão na pequena área, Amato pegou o rebote e bateu forte, à queima roupa. Gilmar tirou de joelho. Sabendo da importância da intervenção, os zagueiros Paulo Turra e Émerson foram parabenizar o goleiro, que não quis perder tempo com homenagem e pediu para os companheiros posicionarem-se imediatamente na cobrança de escanteio.
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    Gilmar não precisou trabalhar tanto no segundo tempo. Mas como bom goleiro, contou com a sorte no momento decisivo. Foi assim ao ver a bola bater na trave, logo aos 10 minutos, em chute de Anderson Polga da entrada da área. Aos 47, conseguiu um feito nada fácil, que deu ainda mais brilho para sua ótima atuação na partida final: defendeu um pênalti cobrado por Ronaldinho.
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    Hoje, campeão gaúcho, Gilmar prefere nem lembrar o tempo no qual foi criticado duramente pela torcida do Caxias. Corajoso e paciente, soube superar as dificuldades, ganhar a vaga de titular e se tornar o homem de confiança do técnico Tite e do torcedor, que, certamente, saberá prestar uma justa homenagem à parede humana chamada Gilmar.
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Chave de Ouro: o gol de Ronaldinho, aos 48 minutos do segundo tempo, não ameaçaria o título do Caxias. mas a defesa de Gilmar no pênalti cobrado pelo maior craque do futebol mundial coroou uma noite inesquecível

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FESTA ITALIANA ANIMA O OLÍMPICO
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Quatro Mil Torcedores apoiaram o Campeão
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    Alegria, o sentimento que prevalece numa região de colonização italiana, esteve presente atrás de uma das goleiras do Estádio Olímpico na noite de ontem. A comemoração do título do Caxias foi feita no melhor estilo italiano, com salame, gaita, música e muita diversão.
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    Deslocaram-se para a capital 85 ônibus, além de muitas vans e carros particulares. Todos com o objetivo de ver o time levar o título do Gauchão para a Serra. A torcida caxiense lotou com mais de 4 mil representantes o espaço que estava reservado a ela, tanto nas arquibancadas quanto nas cadeiras.
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    -Sensa el titulo, d cuá non demo via (sem o titulo daqui não sairemos) - gritava em dialeto vêneto o comerciante Ademir Antonello que carregava um salame no bolso.
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    A superstição não poderia faltar. O representante comercial Giovani Marcelo Pezzi foi ao Olímpico com uma bandeira enrolada no pescoço.
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    É um manto da sorte, explicou.
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    As faixas continham as mais diversas frases, entre elas "time guerreiro não precisa de dinheiro". Jair, Rosalvo e Vivaldo Dal Pozzo, irmãos do goleiro Gilmar, residentes em Paraí, também estavam no Olímpico.
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    -Somos naturais da localidade de Santa Maria Goretti, onde o Gilmar começou a jogar. É emocionante vê-lo disputando uma final - declarou Jair Dal Pozzo.
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    Para proteger a torcida do Caxias, a Brigada Militar montou o mesmo esquema utilizado no clássico Grenal. Os ônibus foram até o Estádio Beira Rio e dali escoltados até o Olímpico.
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    E por falar em Inter, muitos colorados e algumas torcidas organizadas reforçaram o coro de "É Campeão!", com o entusiasmo de quem há muito tempo aguarda o grito para ser dado, sem sucesso, para o próprio time.

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Nada Mais: bastou Gilmar defender o pênalti para o árbitro Carlos Simon encerrar o segundo jogo da decisão, dia 21 de Junho, no Olímpico. Émerson, com a cabeça enfaixada, corre para abraçar o goleiro.

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MADRUGADA DE ALEGRIA EM CAXIAS DO SUL
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    A festa que começou animada em Porto Alegre prosseguiu ao longo da gélida madrugada de Caxias do Sul, onde os termômetros marcavam 1ºC. 
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       Na verdade,quase nenhum torcedor caxiense acreditava que o título não fosse conquistado por seus jogadores, tamanha era a vantagem da equipe, que podia perder por até dois gols de diferença. Por isso o campeonato já era comemorado ao longo de todo o dia de ontem.
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    Ainda assim, durante o jogo havia uma expectativa. A cada minuto que passava, aumentava a euforia e os fogos de artifícios cada vez mais infernizavam a cidade. No intervalo da partida, havia muita gente nas ruas. uma carreata começou a se desenhar e apenas um raro receio da virada gremista continha alguns torcedores.
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    Quase no final, a cidade era só torcida do Caxias. Mas bastou o árbitro Carlos Simon apitar o final da partida para a festa tomar conta das ruas de Caxias, muitos torcedores assistiram ao jogo em telões colocados em vários bares.
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